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ISBN 85-86736-12-0 versão on-line

An. 4 Col. LEPSI IP/FE-USP Out. 2002

 

O Ser infante e o Ser professor na memória educativa escolar

 

 

Inês Maria Marques Zanforlin Pires de Almeida

Universidade de Brasília/Faculdade de Educação

 

 


RESUMO

Neste artigo propõe-se a memória educativa como um dispositivo através do qual o professor possa construir a sua verdade histórica, produzir uma nova relação com o vivido e desencadear um processo pelo qual, parafraseando o pensamento freudiano, possa fazer as pazes com a criança que está dentro dele, ou seja, em meio às vicissitudes de sua formação supõe-se o Ser infante no Ser professor.

Palavras chaves: Psicanálise e educação, Formação de professores e memória educativa


ABSTRACT

In this article school memories are proposed as a device through which teachers may construct their historical truth, produce a new relationship with their life story and launch a process by which, in a Freudian sense, they may come to terms with their inner child, in other words, among the vicissitudes of the teacher's education it is assumed that the child self resides within the teacher self.

Key words: psychoanalysis, education, teacher education, school memories


 

 

Dos estudos e reflexões advindos da pesquisa na elaboração da tese de doutoramento sobre a Re-significação do papel da Psicologia da Educação na formação continuada de professores de Ciências e Matemática ( 2001), dentre outras estratégias utilizou-se a memória educativa dos professores ( no total de 279 ), cuja relevância e significado foram decorrentes, dentre outros aspectos, da utilização do aporte teórico psicanalítico para sua leitura e análise. A este número inicial foram acrescentados 141 memoriais de estudantes em nível de graduação (cursos de Pedagogia e Licenciaturas) e pós-graduação ( Mestrado em Educação na área de concentração-Magistério: Formação e Trabalho Pedagógico)

Quando se trata da formação do educador, em especial de seu papel nas questões fundamentais que envolvem a transmissão do conhecimento, destacam-se os efeitos subjetivos que perpassam e de certo modo são determinantes de seu "fazer pedagógico". Neste sentido, é significativo registrar que ao longo das últimas décadas, constatou-se uma viragem nos estudos envolvendo professores como sujeitos, particularmente àqueles que se referem ao ato de ensinar compreendendo que a imagem do ato de ensinar pode ser considerada como uma espécie de rito de iniciação, conforme Bohoslasky (1985) citado por Catani (2001,p.62), ou como esta autora também sugere: " se se quer levar os professores a compreenderem e dominarem as regras que organizam os processo de formação, é preciso que esse processo passe pelo conhecimento ou pela consciência das suas próprias experiências da vida escolar e as formas pelas quais eles próprios foram iniciados nas suas relações com o conhecimento" (p.63).

Admite-se, portanto, que o professor possui uma formação anterior adquirida "ambientalmente" (Carvalho,2001), durante os muitos anos em que, como aluno, esteve em contato com seus professores, com conteúdos a serem aprendidos, colegas e rituais muito peculiares que lhe permitiram construir teorias implícitas sobre o processo ensino-aprendizagem e sua identidade como professor.

Em outras palavras, Nóvoa (1995) registra como evidência desta explosiva viragem nas pesquisas a data da publicação em 1984, do livro de Ada Abraham, com o título O professor é uma pessoa. Desde então, apareceram muitas publicações, biografias e autobiografias docentes com o mérito indiscutível de recolocar os professores e suas vidas no centro dos debates e investigações educacionais.O olhar sobre a vida do professor e ele enquanto pessoa passaram a ser um imperativo, ou seja, da ordem do impossível separar o eu profissional do eu pessoal.

No horizonte destas questões e na centralidade deste trabalho colocou-se a memória educativa do professor, pensada como um dos instrumentos mais valiosos e estimulantes de pesquisa, lugar de expressão da subjetividade na formação de sua identidade como educador, um material riquíssimo do qual, como sujeito histórico, só ele possui os registros. Identidade entendida como um lugar de lutas e conflitos, um espaço de construção de maneiras de ser e estar na profissão, reconhecendo seus laços com a história de vida do sujeito e vicissitudes enfrentadas nas complexas relações entre objetividade e subjetividade em sua formação.

Nesta perspectiva, Kenski ( 2001), respondendo sobre o papel do professor na sociedade digital, " um profissional que persiste apesar de tudo", ressalta a importância dos valores pessoais no comportamento docente, acentua a importância de como os valores "marcam" os alunos, em muitos casos com aprendizagens mais significativas do que as próprias informações apresentadas na disciplinas. Os alunos esquecem os conteúdos de muitas matérias, mas atitudes e valores adquiridos no convívio e no exemplo de seus professores permanecem incorporados aos seus comportamentos, às suas lembranças" (p.101).

Esta expressão, inequivocadamente, nos remete ao pensamento freudiano em seu texto: Algumas reflexões sobre a Psicologia Escolar

Freud ( 1914/1916): é difícil dizer o que exerceu mais influência sobre nós e teve importância maior foi a nossa preocupação pelas ciências que nos eram ensinadas, ou pela personalidade de nossos mestres [...] para muitos, os caminhos das ciências passavam apenas através de nossos professores (p.248).

A hipótese freudiana, segundo a qual nosso aparelho mental possui uma capacidade receptiva ilimitada para novas percepções e, não obstante, registra delas traços mnêmicos permanentes, embora não inalteráveis, tornou possível encontrar respostas para questões suscitadas pelos memoriais dos professores e estudantes – sujeitos das pesquisas.

Freud (1913/1996) assinalou a importância da memória escrevendo que a Psicanálise foi obrigada a atribuir a origem da vida mental dos adultos à vida das crianças e teve de levar a sério o velho ditado que diz que a criança é o pai do homem. Delineou a continuidade entre a mente infantil e a mente adulta e observou também as transformações e os remanejamentos que ocorrem no processo. Na maioria de nós existe, em nossas lembranças, uma lacuna que abrange os primeiros anos da infância dos quais apenas algumas recordações fragmentárias sobrevivem. Pode-se dizer que a Psicanálise preencheu essa lacuna e aboliu a amnésia infantil do homem (p.185). Neste sentido, parafraseando-o, talvez seja possível dizer que o aluno é o pai do professor, ou de outro modo que o Ser infância se insiste na memória educativa do Ser professor.

"...não me lembro do decorrer do ano, o que realmente me marcou foi a difícil adaptação à escola, especialmente o medo de ficar sozinho em um ambiente desconhecido e de que meus pais não me pegassem no final da tarde, Recordo que, no início, chorava muito quando meus pais me deixavam com a professora, depois dessa fase não me lembro de absolutamente nada" ( estudante de História/2002)

A noção fundante da relação psíquico e memória é a de que não é o aparato psíquico pré-condição para a memória, mas esta é pré-condição para que se forme o aparato psíquico, ou seja, não há psíquico sem memória. Interessante constatar a aproximação que Freud faz entre as formações do inconsciente e memória, sua clássica formulação no início dos trabalhos ainda com Breuer de que as histéricas sofriam de reminiscências atravessou sua construção teórica de ponta a ponta.

Analisando o pensamento freudiano, Lajonquière (1996) alude ao fato de o sujeito estar amarrado a um passado esquecido, ou seja, não lembrado, acrescentando, que não podendo historiar esse passado, o sujeito evitava , pelo menos, o abismo segurando-se a um acontecimento passado. À medida que lembre em ato- isto é, repete e não lembra- o passado não passa, e, portanto, cabe concluir que aquilo do qual sofre é de um passado que não passou (pp.131-132). Neste ponto, chama atenção para o papel da análise na produção de uma verdade histórica, construí-la produziria uma nova relação com o vivido e poder-se-ia experimentar um presente cujo sentido não esteja contido no passado.

Deste lugar, é possível pensar a memória educativa como a palavra contida na enunciação mínima do professor, com poder também de construir uma verdade histórica, de produzir uma nova relação com o vivido , construindo e (re) construindo sua identidade, enfim, desencadeando um processo no qual o professor possa fazer as pazes com a criança que está dentro dele, ou seja, o Ser infante no Ser professor.

Em interessante artigo, Mafra (1999) referindo-se aos escritos de Freud sobre a reelaboração, apontando a perspectiva da história enquanto reinvenção da narrativa, compara-o ao trabalho analítico. Lembra a autora que a prática clínica acompanha o sincopado desta narrativa no trilho da transferência, que conduz à revelação dos arcanos do sujeito, através dos textos dos sonhos, dos lapsos, dos chistes, dos sintomas. Todos eles, na leitura freudiana, correspondem à irrupção do inconsciente no discurso, ou seja, a linguagem pode ser compreendida como um fio que, mesmo tênue, tem condições de expressar significados para além das palavras.

A partir desta leitura, impôs-se um instigante e pretensioso pensamento, o de que a memória educativa, com inevitáveis limitações, também possa conduzir à revelação dos arcanos do sujeito-professor, analisar alguns enigmas quanto à sua infância, em especial a escolar e responder questões suscitadas quanto, por exemplo, ao papel desta infância-escolar em sua formação e/ou (de) formação, discutindo e encaminhando análises sobre diferenças que perpassam os memoriais, reveladoras, por exemplo, das relações de poder/autoridade constituídas na infância através de diferentes gerações e que marcam o perfil da autoridade pedagógica exercida pelo professor.

"...cada ano tinha um professor que me chamava mais a atenção e eu passava a observar o comportamento dele. na quinta série foi o professor de Matemática – ele gostava de desafiar os alunos com exercícios difíceis, quando um resolvia ele fazia o maior elogio, desse jeito conseguia motivar a muitos. Na sexta série, foi a professora de Ciências – ela procurava sempre mostrar o porquê das coisas, nas aulas dela a turma procurava ficar bem caladinha para entender como as coisas funcionavam. Na sétima e oitava séries, foi a professora da Matemática, sua habilidade de conversar com os alunos era sem igual. No segundo grau o professor de Física pelo seu conhecimento da matéria e sua organização, o quadro no final da aula parecia uma escultura de arte. A professora de Português pelo seu jeito engraçado de desenvolver o conteúdo, entre outros..." (professor de Química/1997)

Evidencia-se portanto, o quanto a relação pedagógica propicia condições de exercício da autoridade a partir das relações originais, particularmente as transferenciais que permitem reeditar sentimentos hostis e/ou afetuosos que podem impedir ou favorecer o reconhecimento da autoridade do professor para ensinar. A transformação da autoridade formal em autoridade real depende de um campo transferencial favorável à relação professor-aluno, concorda-se que a criança depende dos professores como dependeu de seus pais, a sombra encobridora dos imagos parentais que se projetam delineam os contornos da sedução intelectual, vinculação erótica à autoridade do professor, assim inscrita nas memórias:

"...minha professora, eu a amava – quem não as ama? Não me recordo bem dela, lembro mais de comentários dos meus pais dizendo que a escola estava mudada, que na saída a professora beijava aluno por aluno e que ela bem (mas bem mesmo!) moreninha..." ( professora de Biologia/1997).

Neste contexto de relação-sedução, os vínculos de transferências estão implicados com o conceito tratado por Freud ( [1920/1922] 1996) como a mais remota expressão de um laço emocional com outra pessoa: a identificação (p.115). O tema da identificação encontra-se em toda a obra de Freud, de 1896, quando mencionado pela primeira vez até 12 de julho de 1938 já em Londres, quando ainda fez anotações para futuro desenvolvimento. Conforme Laplanche e Pontalis (1992), o conceito assumiu progressivamente o valor central, mais do que um mecanismo psicológico entre outros, tornou-se a operação pela qual o sujeito humano se constitui.

Kupfer (1992) e Cordié ( 1996) entre outros autores que escreveram sobre as possíveis relações perigosas ( grifo nosso) produzidas no entrecruzamento das transferências, identificações, sedução e poder, chamaram a atenção para uma das derivações mais comuns da transferência: o abuso do poder, subjacente ao trabalho pedagógico devido à própria posição do professor (autoridade institucional), que no dizer de Kupfer, pode ser investida pelo desejo do aluno e a partir desse investimento a palavra do mestre ganha poder, passando a ser escutada. Em outras palavras, o desejo transfere sentido e poder à figura do professor (p.92). Ao falar das vicissitudes de sua caminhada os professores registraram:

" o que mais admirava e o único que tinha 100% da minha atenção era o professor de História do Brasil...ele fazia parecer que o passado não era tão longe, nos mostrava com a História que podemos fazer uma revolução e nos fazia orgulhar de sermos brasileiros...tocou-me de maneira particular que descruzei os braços e me engajei no mundo político de maneira mais ativa..." (estudante de História/2003)

De outro modo, Almeida (1999) também chama a atenção para a tarefa a ser cumprida pelo educador que exige, daquele que a exerce, o reconhecimento de si próprio e a reconciliação, conforme desejo expresso por Freud, com a sua própria infância, pois somente alguém que possa sondar as mentes das crianças será capaz de educá-las e nós, pessoas adultas, não podemos entender as crianças porque não mais entendemos a nossa própria infância (1913,p.124). Isto implica, continua a autora, que o educador renuncie ao ideal de completude narcísica imaginária e à ilusão de que é possível gestar, por obras dos ideais e normas educativas, pelo menos um adulto do futuro a quem nada falta ( Lajonquière,1997,p.40) (p.76).

Enfim, a aposta teórico-metodológica da memória educativa visa o desencadear de um processo no qual não apenas parafraseando o pensamento freudiano de que a criança é o Pai do homem, poder-se-ia dizer que o aluno é o Pai do professor quanto, principalmente, que em meio às vicissitudes de sua formação o Ser professor possa fazer as pazes com o Ser infante.

 

Referências Bibliográficas

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Cordié, A (1996). Os atrasados não existem – Psicanálise de crianças com fracasso escolar. Porto Alegre: Artes Médicas.

Freud, S (1913). O Interesse Científico da Psicanálise. Em: Edição Standard das Obras Psicológicas de Sigmund Freud. Rio de janeiro: Imago, vol XII,1996.

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Kupfer, M .C. M ( 1992). Freud e a educação: o mestre do impossível. São Paulo: Scipione.

Lajonquière, L.de (1996). ( Psico) pedagogia, Psicanálise e educação. Uma aula introdutória. Estilos da Clínica, Ano III,n.5,pp.120-134.

______( 1997). Dos "erros" e em especial daquele de renunciar à educação. Notas sobre a psicanálise e educação. Estilos da Clínica, Ano II,n.2,pp.27-4

Laplanche & Pontalis ( 1992). Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes.

Mafra,T de M. (1999). Adolescência: eclipse da novela borromeana. Em: Congresso Internacional de Psicanálise e suas Conexões – O Adolescente e a modernidade,tomoI (pp.139-145).Rio de Janeiro.

Morgado, M A (1995). Da sedução na relação pedagógica. São Paulo: Plexus.

Nóvoa, A (1995). Vidas de professores. Porto: Porto Editora.2ª edição.